Como atrair mulheres para empresas de tecnologia?

Texto escrito por Fayra Miranda

Atualmente, diversidade é uma pauta muito falada dentro do mercado de tecnologia. Isso porque, além de reduzir as desigualdades, investir em diversidade torna as empresas mais produtivas e eficientes.

Segundo a pesquisa PNAD Contínua, vivemos em um país onde há mais mulheres que homens. Nossa população feminina é de quase 52% do número total de brasileiros. Contudo, mesmo em um cenário majoritariamente feminino, no mercado de trabalho de TI e cargos de liderança, há uma inversão e nós mulheres somos ainda a minoria. Os números tornam-se ainda mais críticos para mulheres negras, pardas e indígenas.

Para averiguar sobre cenário de diversidade no mercado de TI, a empresa Thoughtworks juntamente com a PretaLab lançaram a pesquisa #QuemCodaBR. Nela, é possível ver alguns dados importantes como:

  • Em 64,9% dos casos de estudo, as mulheres representam no máximo 20% das equipes de trabalho em tecnologia.
  • Esse número só piora quando comparado ao número de mães inclusas nos times. 62,1% dos casos analisados, não há nenhuma mulher mãe nas equipes de tecnologia. Ou seja, em 19,6%, as mulheres mães representam de 5 a 10% das pessoas nas equipes de trabalho.
  • Mulheres mães, ocupam em sua maioria os seguintes cargos: analista, gerente, projeto, coordenadora, desenvolvedora, liderança e sistema.

Você deve estar se questionando: Como podemos mudar esse cenário? Como eu, na minha empresa, posso fomentar a diversidade nas equipes e aumentar o número de mulheres no time?

Este texto visa tentar responder (ou pelo menos dar algumas dicas) de pequenas ações para auxiliar na modificação do cenário atual e torná-lo mais inclusivo.

1. No processo seletivo

O processo seletivo é o primeiro cartão de visitas de uma empresa. Dependendo de como é realizado e como a pessoa candidata é abordada, poderá influenciar na relação que a mesma terá com a empresa (tornando-se detratora ou promotora).

Abaixo, segue algumas dicas para tornar seu processo seletivo mais diverso e inclusivo.

# Adote a linguagem neutra de gênero nas suas vagas

Se você quer inserir mais mulheres na sua equipe, é necessário que elas se sintam incluídas e representadas. Uma boa comunicação é essencial para atingir esse resultado. Portanto, ter uma linguagem neutra de gênero pode auxiliar nesse processo.

Mas afinal, o que é a linguagem neutra de gênero e para que ela serve?

Segundo Ribas, a linguagem neutra de gênero é:

“Uma forma de comunicação que procura superar a binaridade entre feminino e masculino, usando para isso a neutralidade para se referir às pessoas. A linguagem binária de gênero — mesmo quando usamos a forma feminina e a masculina juntas — não é representativa para todas as pessoas, porque existem pessoas que não se identificam com os gêneros feminino e masculino.”

De forma prática, substitua seus termos binários por não binários, como demonstrado a seguir:

  • Contrata-se Desenvolvedor Front-end → Substituir por: Contrata-se pessoa desenvolvedora front-end
  • Gerente de Projetos → Substituir por: Pessoa gerente de projetos
  • Ficou interessado → Substituir por: Tem interesse? / Interessou-se?/ Teve interesse?
  • Os nossos diretores → Substituir por: A diretoria

Para mais dicas e aprofundamento sobre o assunto, recomendo a leitura deste artigo.

# Capacite as pessoas recrutadoras sobre o tema diversidade

Como já dito anteriormente, é no processo seletivo que a pessoa candidata virará uma possível promotora (e no futuro talvez até uma colaboradora da empresa), ou uma possível detratora. Por isso, é muito importante – desde o primeiro contato – uma excelente abordagem e cuidado.

Durante a minha vida, participei de diversos processos seletivos. Porém, foi em tecnologia que eu vi as melhores abordagens. Destacarei aqui uma experiência positiva e uma negativa dentro de processos seletivos para exemplificar boas abordagens (ou não).

Estava participando de uma entrevista para vaga júnior (etapa final do processo). Na chamada, havia uma moça do RH e um líder técnico (até aí, tudo bem). Quando começou a entrevista, percebi que além do líder fazer pouco contato visual comigo, o mesmo não dava espaço de fala para aquela mulher. Quando perguntei como era a política de diversidade na empresa, percebi a inexistência da mesma. Ou seja, não adianta a sua empresa querer forçar falando que apoia a diversidade se os atos não refletirem esse posicionamento.

Em contrapartida, também em uma entrevista técnica para pessoa desenvolvedora júnior, passei por uma das melhores experiências da minha vida. Na mesma reunião, havia eu e duas pessoas para avaliação técnica (um homem e uma mulher). Foi extremamente perceptível a diferença! Ambos interagiam, tinham espaços de fala iguais e estavam preocupados com a experiência do participante (no caso, eu). Quando questionados sobre a temática da diversidade, mostraram ações concretas, como por exemplo: A empresa investia no tema; promovia debates e ações sobre; havia frentes específicas de desenvolvimento para mulheres; apoiavam iniciativas externas como o Programaria e possuíam vagas direcionadas para esse público. Resumindo, não é apenas ter uma mulher na entrevista, mas sim realmente investir na inclusão.

Se quiser saber sobre processos seletivo inclusivo, recomendo a leitura deste texto.

2. Na rotina da sua empresa

Operar é operar com diversidade !

Essa é uma das premissas da empresa que eu trabalho atualmente. Ou seja, diversidade é algo intrínseco em nossa cultura e está evidente em todas as ações tomadas, desde a comunicação do marketing, até as áreas que estão em contato diário com o cliente.

Porém, há uma manutenção constante para manter essa cultura. Abaixo, mencionarei algumas ações que geram resultados positivos.

# Crie grupos para promover diversidade

Um comportamento recorrente do ser humano é juntar-se a outros por interesses comuns. Nesse contexto, durante a idade média nasce o conceito de guildas. Guilda pode ser definido como:

Associação que agrupava, em certos países da Europa durante a Idade Média, indivíduos com interesses comuns (negociantes, artesãos, artistas) e visava proporcionar assistência e proteção aos seus membros.

Crie uma guilda de diversidade na sua empresa! Transforme esse espaço em um local seguro e que possibilite o debate de pautas relacionadas à diversidade.

# Crie canais de escuta

Uma das soluções para aumentar a sensação de pertencimento e acolher as pessoas colaboradoras da sua empresa é criar um um canal de escuta confidencial. Esse meio auxilia não somente no acolhimento, como também na denúncia de situações opressoras, prevenção de problemas, além de dar voz e empoderar as mulheres do seu time.

Porém, para comprovar a funcionalidade dessa ferramenta, é de suma importância tomar ações (individuais ou em grupos) após coletar os depoimentos do canal de escuta.

# Fale com os homens e as maiorias da sua empresa

Em 2018, após uma pesquisa com as mulheres da equipe de tecnologia, a empresa Creditas decidiu fazer uma roda de debates com os seus colaboradores homens, cujo intuito principal era:

‘’ (…) causar uma reflexão sobre o quão saudável e igualitário está nosso ambiente em Produto e Tecnologia” (…)

Dessa ação, conhecida como “Precisamos falar com os homens”, originou-se um excelente artigo que trouxe algumas reflexões:

  • Saber que às vezes fazemos alguns comentários que para nós soam inofensivos e até mesmo familiares, mas que interferem muito na maneira como as mulheres se sentem ao nosso lado;
  • Uma das coisas que temos que fazer além de só falar com as mulheres perguntando como elas se sentem é realmente aprender sobre o tema, estudar e ir atrás de informação;
  • Ensinar é melhor que repreender — o mundo está mudando e nós não temos as respostas, temos que estar abertos a refletir sobre nosso comportamento. Nem todo mundo vai mudar com a mesma velocidade e todos vamos errar em algum momento.

Na empresa que eu trabalho atualmente, o evento “Precisamos falar com os homens” é promovido de forma recorrente, tanto para os nossos colaboradores, como também para a nossa comunidade. É notório a mudança e os benefícios do mesmo! Portanto, promova esse debate na sua empresa, para ensinar e dar visibilidade sobre o tema também.

3. Na sua comunidade

Nem sempre o acesso a oportunidades é distribuído de forma igualitária, principalmente para as mulheres. Durante a sua vida, grande parcela das mulheres são encorajadas (mesmo que inconscientemente) a exercer profissões relacionadas à cuidados e criatividade (arquitetura, pedagogia, fisioterapia, enfermagem, etc …). Podemos ver esse reflexo no número de mulheres na área de STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Segundo a ONU Mulheres, em todo mundo apenas 35% dos estudantes matriculados nesses campo são do gênero feminino.

Portanto, é extremamente necessário as empresas realizarem iniciativas para a comunidade, visando aumentar a inserção de mulheres nessas áreas. Algumas ações:

  • Apoiar iniciativas voltadas para mulheres na tecnologia (Dupla | Reprograma | Programaria | Womakerscode | Pyladies)
  • Auxiliar na formação de mais mulheres (Esse foi meu caso. Graças ao Programa Desenvolve da Boticário recebi uma bolsa integral na Labenu para estudar programação e consequentemente entrar no mercado de tech)

Quando falamos de equidade de oportunidades para as mulheres e pessoas do público de diversidade, ainda temos uma jornada longa pela frente. Porém, você e sua empresa podem auxiliar na redução dessa caminhada😉 !

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